Manifesto troço n.#5/furreba's lovers
- Descompanhia Demolições Artisticas ILTDA
- 3 de mar. de 2017
- 3 min de leitura

É troço, não é espetáculo. É a demolição do próprio troço, o escombro dele, o que restou dele: antes era troço porque buscava a hibridização das formas artísticas, a superação da relação significado significante, adentrando no campo das asignificâncias, pós estruturalismo francês, figural, Lyotard e Deleuze &Guattari na veia; agora é monstruosidade, ser informe, disforme, sem fronteiras, desconexo, não orgânico, transgênico. É o que a Descompan(h)ia outrora nunca faria, nunca traria as vistas do público, é a desinstituição, é a demolição de si mesma.
Amantes do furreba, amantes daquilo que é de mau gosto (para alguns), mequetrefe, plágio, trash, over, coisa ruim, imprestável, com defeito, 1,99. É fuleiro, com gambiarras, patifarias, com a cultura de massa, dublagem fora de sincronia. Uma espécie de sarau, de mostra de artes, cover do show das vedetes no teatro de revista. É fake, é cover, é truque. Feito por pessoas desqualificadas, não especialistas, não doutas. É uma brincadeira, quase de mau gosto. Guerra de mamonas, bolinha de sabão, bolinho de barro, corpo deitado na guia sentindo a água das enxurradas em dia chuvoso, água de biqueira na cabeça, a cachoeira urbana. É pra quem não tem vergonha na cara, não tem reputação a zelar, pra quem não faz de si um produto que deve ser vendido.
Não é um espetáculo, mas um ajuntamento de cacos, de fragmentos, de escombros. É sonífero para alguns, hora da sesta, da naninha na creche, da soneca no transporte público em movimento. Podem roncar, peidar, arrotar para ajudar na sonoplastia do troço. É um abraço à precariedade, ao ponto, ao texto não decorado (tentativa de desferir um golpe certeiro no textocentrismo, logocentrismo).
É um convite à brincadeira despretensiosa, uma brincadeira de crianças pós vídeo games que voltaram para as ruas na tentativa de brincar sem saber como. É peça de formatura de escola de arte golpista, charlatã, ordinária, feita às pressas, nas coxas. É cospobre, é cópia da cópia da cópia do xerox, é show de calouros.
É teatro? É, mas não é espetáculo, é teatro de quintal, de garagem, de faça você mesmo, é punk, é ferro velho, é terreno baldio, campinho da várzea.
O público é convocado para adentrar a sala de ensaio/atelier: ele não veio para assistir algo passivamente, veio viver algo coletivamente. Ele pode se deslocar pelo espaço em busca de algo, pode fazer a pateada, assobiar, gongar a cena, fazer comentários em voz alta durante o troço, torcer por uma personagem, etc. Buscamos um desaburguesamento do público, uma desdomesticação do público emudecido, só olhos.
O troço é um puzzle, peças que se encaixam, se moldam, em constante modificação de sentido. Não teremos a repetição do mesmo troço: a cada dia uma experiência porque vamos descobrindo aos poucos a relação entre as personagens e situações criadas, entre o texto e a cena. Work in progress ou, num linguajar menas phina, coisa que vai se construindo e se descontruindo e se reconstruindo a cada encontro, incessantemente.
Por fim, vem ni mim!!! Brinque – escape da seriedade/sobriedade eficiente, funcional, nem que seja somente por alguns breves momentos, faça sua autorrebelião!!! – e arranque de seus olhos a madureza, arranque de seus olhos o urubu em cima da carniça, o corvo no milharal, o desejo de transformar tudo em pedra, paralisando tudo e todxs com padronizações e criticismos anti fluxos vitais, arranque o olho gordo, se possível. Crie novas gramáticas, desgramaticalize-se, atribua sentidos, use sua imaginação, seja coautor. Seje criança, pré-verbal, e venha brincar na casa dx coleguinhx, no Território Descon!