Experiências e experimentações com dança
- Gabriele Candido Barcellos
- 9 de mar. de 2017
- 3 min de leitura
Quando penso em dança, penso inicialmente em possibilidade e disponibilidade. Quais são as possibilidades do seu corpo? Até onde ele se encontra disponível?
O corpo possui inúmeras e diversas possibilidades, Ana Pavlova, Isadora Duncan e Pina Baush são três modelos que já se observa a diversidade que o corpo possui. Estilos como chamamé, frevo, vogue, dança do ventre, sapateado entre diversos outros são possibilidades. O primeiro passo é ter em mente: quero me encaixar em uma das possibilidades ou quero descobrir as minhas possibilidades pessoais que podem ou não se encaixar em um desses diversos estilos? Nenhuma das respostas que escolher terá peso de valor, possibilitará apenas caminhos distintos. Escolhendo se encaixar em uma das possibilidades já existentes você escolhe se aprimorar numa técnica específica, que irá aprimorar seus movimentos de maneira conduzida para se chegar a um resultado esperado. Dessa maneira se formam dançarinos das diversas áreas. Escolhendo descobrir as possibilidades subjetivas você escolhe um caminho turvo que não possui trilha como o anterior: aqui você vira dependente de si mesmo, de seus interesses e suas experiências. A questão ao escolher esse caminho é descobrir o que alimenta seu corpo em questão de movimento e investir nesse alimento, que pode desencadear em algo novo, seu, ou em um interesse numa das possibilidades já existentes. Pode ser até que não se chegue a lugar nenhum.
Para qualquer uma das opções que escolheu anteriormente é necessário ter em vista a disponibilidade que existe, potencialmente ou não, em seu corpo. Aqui definiremos disponibilidade como o impulso existente em seu corpo que permite que ele possa se mover de determinada maneira. Por exemplo: o corpo de um dançarino de vogue está disponível para fazer um death drop, o corpo de uma bailarina está disponível para um grand plie, o corpo de uma criança de 6 anos está disponível para correr durante um período de tempo maior que um adulto de 40 anos e o corpo de um pedreiro está disponível para a criação de um muro. Todos os corpos estão disponíveis para diversos movimentos a todo instante. A disponibilidade de um corpo é definida a partir de fatores biológicos e sociais. Biológicos, pois um desvio da norma padrão médica pode às vezes impossibilitar certo movimento e as vezes uma característica genética pode facilitar outros. Uma pessoa que nasceu com algum problema no pulmão pode ter dificuldade na realização de algum esporte ou dança e uma pessoa com pernas em x terá maior facilidade em danças ou ginásticas que exijam maior flexibilidade. Os fatores sociais se dão a partir dos conceitos de habitus e causalidade do provável de Bourdieu, que nos mostram que a maneira como fomos formados desde o nascimento definem a pessoa que somos, as escolhas que tomaremos e os resultados que teremos em sua maioria. A disponibilidade do nosso corpo entra no aspecto do quanto acreditamos conseguir ser disponíveis e a que ponto acreditamos que conseguiremos alcançar. É um ponto subjetivo que muda nossa relação com nosso próprio corpo e com o trabalho que faremos com ele. A partir desses dois fatores principais, a evolução que você alcançará será devido a tempo que você aplica no trabalho com seu corpo.
O trabalho de dança que ocorreu durante três meses na descon foi um trabalho conduzido, mas com margem para a criação. Foram feitos diversos exercícios que tinham um objetivo, mas os caminhos para esse objetivo eram diversos e livres. Existiram dois momentos: um em que se escolheu por uma possibilidade específica, em que se tinha com objetivo expandir a disponibilidade do corpo dos integrantes e para isso foi feito exercícios nos três planos que pretendiam exercitar lugares do corpo que nunca ou raramente são utilizados. Outro momento foi o de explorar as possibilidades pessoais por meio das disponibilidades já presentes no corpo de cada um individualmente e no corpo coletivo.
A maior dificuldade do processo foi procurar um meio de fazer com que o trabalho com dança fosse diretamente aplicado nas cenas e tivesse resultados direcionados, mesmo tendo espaço para criação corporal. Observar como em cena um dos integrantes tinha dificuldade em se manter com os pés no chão e então direcionar a dança para a ideia de peso, ou como não há dinâmica entre duas pessoas em uma cena e direcionar a dança para as relações externas. Foi uma experiência conjunta com todos os integrantes descobrir o que se procura nos exercícios, com certo direcionamento de um olhar já treinado em dança.
Observar quais as disponibilidades para dança de cada um e como levar essa disponibilidade ao máximo foi uma experiência nova que me alimentou muito como dançarina e acredito que um investimento na investigação da dança subjetiva de cada um traria resultados maravilhosos.