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Inauguração de sol a ré, de mi-lá-si-ou-fé: é só pra quem sabe fazer trocinhos....

  • Foto do escritor: Descompanhia Demolições Artisticas ILTDA
    Descompanhia Demolições Artisticas ILTDA
  • 9 de mar. de 2017
  • 4 min de leitura

Tânia Villarroel

Fui convidada no dia para a inauguração da Descon. “Tânia, você pode dançar para gente?” Respondi, já sabendo a resposta: “Pode ser qualquer coisa?” Claro que sim, na arte tudo pode, é tudo vira pretexto.

Anos, não tantos mais alguns se passaram e o que eu percebo mais e mais é que você só vai para onde tem que ir, precisa ir, de onde a energia te chama – é assim que as coisas acontecem, é que a vida se manifesta diariamente, mas nem sempre a gente percebe os milagres. Milagres que aqui se diga com jus a sua origem etimológica: mudança de percepção. Não para desvalorizar a espiritualidade do termo, mas para aproximar o incrível que é toda a energia de vida manifesta, entendem? No mundo, a toda hora e qualquer instante...

Tinha aridez de coisa nova, sabe que nem bebê que nasce sempre meio no susto da vida, então...assim! As paredes rústicas ainda, a entrada bastante informal em todos os sentidos – é como se quem chegasse fosse também um explorador ou espião de algo que está em andamento. Pois então eu pergunto, o que é que não está em a-n-d-a-m-e-n-t-o, minha gente? Coisa que nasceu, mas ainda não expulsou placenta, sabe? Quem chegou foi sendo nascido também... Não tinha uma escolha, tinha várias... E ia sendo meio que empurrado pra dentro de si e pra fora do outro...Entre um líquido amniótico e outro, numa troca de lua assim esbaforida, o espaço que foi aberto ali, ia mostrando que ninguém tá pronto – em definitivo bem definido - para estar pronto, a gente vai vivendo as coisas, vai construindo relações. Não tem regra, bula e nem contraindicação, sabe como é?

Algumas observações finais, coisas a serem melhoradas sempre, e daí? Sempre haverão. Nunca deixar de fazer porque falta algo – se possível... Era sintoma de urgência, mas não era parto fórceps... Era parto em casa! Em romantizar, nem colocar ou tirar nada. Parto em casa também inclui selvageria e uma certa coragem de estar à disposição que lugares muito civilizados não permitem. A gente vê a cara da boceta, mas não se confunde com o rosto enrugado do bebê. Cada um no seu cada qual. Cada um faz o que pode, mas não é assim também que vou fazer de qualquer jeito não... É meio esse tom: não preciso estar pronto se estou disposto a me entregar do jeito que eu conseguir. É tipo um clube da luta às avessas: só por hoje vou me apresentar com coragem...

Mas... Como a cada dia que a gente acorda, a gente se inaugura... Veio a reinauguração, no dia 26 de novembro: pra mostrar que sempre se está em processo. Não era revival, nem trilogia: era uma versão divertida de mortos vivos. Samara jamais dormirá. I’ll be back. Algo com gosto de tensão viciante, adrenalina contagiante. E também porque a gente tem um gen teimoso e perfeccionista que sabe que a gente pode fazer melhor, se organizar melhor, corresponder melhor, do que a gente pensa ser o nosso melhor. E não tem a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e nada de errado com isso.

Troços esparramados pra todo lado. Sim, porque pra quem não sabe, cena pra Descon não é cena, precisa ser troço. Troços permanente e temporários, que dialogam entre si ou que trazem um contraponto: diversidades. Me lembro quando ainda no começo de algumas ideias, o Luiz usava a palavra “Fez um troço lá, você sabe?” ou “Fiz um troço”, enfim... E como isso, pelo menos em mim, foi criando muitas camadas. Tanto é que quando hoje escuto TROÇO, penso em como as geleias chilenas trazem “trozos” de frutas, que dão toda uma textura diferente pro gosto das coisas. Quê de coisa caseirinha, que tem alguma conexão com a natureza, porque – ainda bem – ninguém consegue ser industrializado 100%. E daí quando fico sabendo que alguém fez um troço, já imagino se é de framboesa, de damasco ou murta, eu sei lá... mas que cada um a seu modo e que quanto mais genuíno mais gostoso, porque a gente saboreia pedacinho-de-pessoa por entre as frestas da criação, sabe? São delicinhas de vovó!

Também não posso deixar de pensar que TROÇO tanto em Português como Espanhol remete a merda. E afinal, o que esperavam de nós, artistas? Que revelássemos o que além da nossa grande obra? Num momento como esse no mundo, é preciso muito estômago mesmo pra processar tudo e ainda conseguir botar tudo pra fora, sem desperdício.... Haja coração valente pra deixar o público interpretar o que quiser! Espaço necessário, entendem?

Gosto desse tom anarco-psicodélico-surrealista: nem tudo que vejo me agrada, algumas coisas me fazem pensar muito sobre tudo que eu acredito ser ou não ser arte inevitavelmente. Em contrapartida, nem tudo que eu faço acho que ficou bom – e não estou pedindo confetes não, é que hoje consigo perceber e acreditar nas minhas intuições; elas não me espantam mais, mas às vezes gosto de ser surpreendida por ela. Mas, justamente por isso, por essa vibração genuína, os momentos bons não sofrem de dúvidas – e isso é muito valioso, quer dizer que as coisas estão vivas e que a arte não é feita para agradar ou desagradar alguém, mas para mover algo dentro e fora de nós a um só tempo. Implodir nossos preconceitos de dentro. Não é psiquismo, nem individualismo, mas a revolução se sente vindo de dentro, algo capaz de reverberar no coletivo em silêncio – sensações em estado bruto. Não precisamos de cenas prontas, precisamos deste estado de criação.


 
 
 

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 o troço:

 

Acreditamos que o conceito 'espetáculo' não consegue dar conta de nossos anseios estéticos e, por isso, procuramos e encontramos numa outra palavra conceitual, um tanto inusitada, algo que nos pareceu mais condizente: troço.

 

O troço é uma coisa. E uma coisa é difícil de ser definida, delimitada, de se ver claramente seus contornos, é algo que nos escapa à explicação, mas que também tem em si algo de quase desprezível, de imprestável. O troço está à margem.

 

A utilização de troço ao invés de Espetáculo como denominação de nossa criação traz consigo um posicionamento crítico sobre a sociedade contemporânea, compartilhando com pensamento proposto por Guy Debord em sua obra Sociedade do espetáculo.

 

Além disso, como resultado estético, encontramos no troço a hibridização das formas artísticas.

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ago/16: Inscrições e início da Oficina de Demo_lições Artísticas  

ago/16:  Intervenção texto coletivo

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