Programa/manifesto troço Sapateado do bode
- Descompanhia Demolições Artisticas ILTDA
- 19 de mai. de 2019
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Não é espetáculo, é troço. Não há a preocupação em corresponder às expectativas espetaculares do bom gosto, do bem acabado, finalizado. É a escolha pele inacabado, em processo de construção e desconstrução sem fim, pelo rascunho, pelo ensaio. É a abertura da sala de ensaio com seus riscos, incertezas, hesitações, experimentações. É a desmistificação do fazer teatro, feito aqui e agora, às vistas do público, sem truques, sem ilusionismo, sem glamour. É a busca da criação de um espaço de diálogo, de debate, de bate papo ao vivo. É construir espaços coletivos de reflexões onde não haja uma hierarquia entre o popular e o erudito. É teatro de quintal, de garagem, de faça você mesmo. É a escolha pela brincadeira como gesto de resistência à seriedade do dia a dia, à eficiência massacrante, à necessidade de sempre acertar, não errar jamais. É o espaço para o erro, para se sentir à vontade de falar sobre, conversar, comentar, sugerir, participar, completar, complementar, compor. É teatro? É, mas não aquele teatro no qual temos que ficar em silêncio, mudos. Os presentes podem se manifestar por meio de comentários, bater palmas, vaiar, fazer a prateada (bater os pés) etc durante o desenrolar do troço.
O Sapateado do boxe é uma tragicomédia, ou seja, é uma comédia, mas também é uma tragédia, ao mesmo tempo. Nem isso, nem aquilo, mas isso e aquilo – como a vida. Podemos rir, mas podemos chorar; podemos nos identificar, mas podemos achar que não temos nada a ver com isso. Podemos achar tudo uma grande palhaçada, uma bobageira sem fim, podemos achar tudo sério demais. Uma família. Pai, mãe, filho, filha. Quatro juntos e separados. Intimamente ligados e desconhecidos. Completamente diferentes mas completamente iguais. Se odeiam, mas não se desgrudam. Se amam, mas não se suportam. Um o reflexo do outro, ora distorcido, ora perfeitamente igual. E muitas memórias. Um formigueiro de memórias, um enxame, uma alcateia. E um sapateado, orquestrado por um bode, que tem uma expressão enigmática em seu rosto: é um riso? Um deboche? Um sarcasmo? Um choro preso? Um grito brotando? Um tom a mais, um batuque mais forte, um batom mais carregado, uma carne mais salgada, uma gargalhada forçada, um choro para chamar atenção dos outros...um tom a mais.
O Sapateado do bode é cheio de clichês, de estereótipos, de senso comum. Não é real: é como se fosse um sonho que se torna um pesadelo que não deu certo. É pecinha, teatrinho. É tão pão com ovo, arroz com feijão, banana no meio do pão que podemos terminar com esse chavão: qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.